domingo, 8 de março de 2009

Mulheres...

“ Que intimidade ancestral
Têm as mulheres
Não apenas com legumes
Lençóis talheres
E comprimidos.
Que baús trazem no útero
Que universos perdidos
Que pérolas
Nos olhos
Que pencas de suspiros
Como se os mínimos objetos
Fossem também seus filhos.”
Afonso Romano de Sant'anna

sexta-feira, 6 de março de 2009

Máscaras no curso, no discurso, na vida...


O tempo das imagens: caleidoscópio de máscaras....voyeurismo total! O universo cibernético desnudou até mesmo aquela prima mais casta. Tudo virou público, futricado, estereotipado. Mas mesmo com tantos blogs, sites, vídeos, podcast etc, nenhuma tecnologia é capaz de alcançar a fotografia real de um ser. A essência nunca é escancarada. Doamos sempre a platônica réplica das réplicas. Toda confissão é mero simulacro do real. Assim como "... a melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada..."( Machado de Assis), nenhum olhar, gesto, ou sorriso esboça uma só gota do peso de uma alma.

Quanto mais buscamos a total exteriorização do cru, mais temos a chance de pisar no terreno da ficção e aí.... viramos seres "virtuais": inventamos histórias, enfatizamos fatos corriqueiros, amenizamos dores nada fantásticas, ornamentamos sentimentos banais.

Num carnaval ao avesso, não nos dirigimos aos outros indagando, como na canção de Chico " Quem é você, diga logo que eu quero saber o seu jogo". Ao invés de tirarmos as máscaras descobrindo as faces verídicas, fabricamos outras tantas e trocamo-las num ritual de desencontros que remete a outro verso da referida música ... " Mas é carnaval, não me diga mais quem é você... O que você pedir eu lhe dou...Seja você quem for, seja o que Deus quiser ." Criamos uma vida ficcional que se entrelaça com o próprio cotidiano. Onde termina o real e começa o mero devaneio? No fundo tudo é um grande saco de serpentinas e lantejoulas. Meramente sugestão.... e ficamos sempre embriagados com o brilho artificial do fingimento, tal qual o brilho das estrelas -lâmpadas há muito tempo apagadas...

segunda-feira, 2 de março de 2009

O Curioso Caso de Benjamin Button

Difícil distinguir qual cena seria a mais densa do filme. Mas o tic-tac do relógio interno da personagem Daisy, escancarado no seu olhar que sucumbe à dor de enxergar um Benjamim cada vez mais menino, enquanto ela sente o rastro do tempo em cada nova ruga, não me deixou parar de relembrar os versos de Cecília Meireles...
Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Ternura nos risos...

O poema abaixo está no blog: http://www.cambalhotas.org/blog/
Risadas que se multiplicam ao ler o trabalho de Vitor Freire e Alison Villa.


Olhem um trechinho da explicação deles sobre o "Cambalhotas":

O Cambalhotas é onde depositamos o nosso desejo de uma vida menos ordinária. Está na contra-mão de todas as coisas sérias, sisudas, convencionais, chatas, sem graça, com adoçante, sem pimenta. Aqui, toda a nossa grandiosa luta e resistência para deixar o chão arejado para nossas palavras dançarem, nessa coreografia espontânea, no ritmo lúdico da vida.

Agora sim... lá vai o poema de Alisson Villa:

Má influência

Quando dei pinga ao telefone, ele embolou a fala dos amantes até terminarem o namoro.
Quando dei pinga à xícara, ela tentou voar com sua única asa e terminou em caquinhos.
Quando dei pinga ao sol, ele adormeceu sobre uma nuvem atrapalhando a passagem da noite.
Quando dei pinga ao dado, ele cambaleou incerto sobre que número oferecer.
Quando dei pinga ao jornalista, ele escreveu um poema sobre a alta dos juros.
Quando dei pinga ao texto, suas letras ficaram em itálico.
Quando dei pinga à bailarina clássica, todos assistiram uma apresentação contemporânea.
Quando dei pinga ao maestro, a orquestra afrouxou o smoking e tocou um samba.
Quando dei pinga ao camaleão, ele trajou um arco-íris.
Quando dei pinga ao pente, ele sorriu seus dentes.
Quando dei pinga à estrada, ela insinuou-se para todos.
Quando dei pinga à pilha, em meia hora ela gastou sua energia.
Quando dei pinga ao cabide, ele despiu-se da blusa para realçar o balançar de seus ombros.
Quando dei pinga ao guarda-chuva, ele perdeu até os pingos mais gordos.
Quando dei pinga ao criado mudo, ele desinibiu-se puxando muita conversa.
Quando dei pinga ao mineiro, a cachaça sentiu-se uma verdadeira água mineral.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Quero mil ternurinhas.....

Farejo delicadezas advindas de trincas, brechas, periferias, superfícies e profundezas. Todos os sentidos atiçados na procura de ternuras diversas.
Quero mil ternurinhas: As óbvias como beijo em dia de chuva, colo de mãe quando estamos doentes, perguntas infantis, gargalhar com amigos, viajar numa canção, filme, imagem, palavra. Café quente em dia frio na casa da avó, descobrir um lugar legal para ir....
Quero também as ternurinhas omitidas: Do cacto que às vezes se abre em flor, do amarelo de cheiro impregnante que se desponta na sequidão do cerrado em ipês, pequi, coco macaúba....
A ternura que se derrama num telefonema para dizer "oi", no presente que se recebe sem esperar em dias estranhamente tristes.
Quero a ternura que emana das agendas antigas ao constatar, com sangue ritmado pela nostalgia, que muitas metas enumeradas já foram percorridas...
A ternura que levanta-se quando cai de um livro, cd, ou caixa antiga: pétala de rosa vermelha(prenúncio de uma paixão já finda), papel de bombom, ideias anotadas à esmo num guardanapo de retaurante, num ingresso de cinema, num fragmento tão banal, tão corriqueiro, que até se assusta, desnudado, quando percebe que não é mais lixo cotidiano e tornou-se "super star" no terreno da memória, no lembrar/deslembrar.
Quero a ternura da história de amor dos tios, dos pais, do vizinho, da mulher que chora no ônibus. A ternura do corpo nu e o enigma do corpo encoberto. A ternura de um casal de velhinos...
Quero até mesmo a ternura dos dias de melancolia, quando o peito se enche de tristeza. São nesses dias que lembramos das melodias e versos mais dolorosos e _ por que não? _ mais belos; e compomos as metáforas mais dignas...