sexta-feira, 3 de abril de 2009

(Nada) vã filosofia de boteco

Os bares condensam ideias plausíveis. São incontáveis as parcerias, músicas, projetos viáveis(ou não) que surgiram sob a filosofia boêmia de botecos.
Minha família inteira repete uma frase, aparentemente sem nexo, ouvida há muito tempo por um primo meu. Ele estava passando por uma dessas cidadezinhas aqui do norte de Minas que não me recordo o nome e viu um bêbado acordar na porta de um bar e proferir de forma bem enfática : " Eh saudade de Alzira! "
Pronto! Na primeira cachacinha com os amigos, ele repetiu a frase e contou a história do bêbado. Alzira passou a ser reclamada e aclamada por toda a família. Quando alguém está cansado, ou com uma melancolia pungente, ou simplesmente triste: é saudade de Alzira! Esse nome passou a ser como a Pasárgada de Manuel Bandeira... se as coisas estão ruins: Grite por Alzira!
Se a escritora Lya Luft resolvesse colocar essa minha história familiar no seu livro de contos "O silêncio dos amantes", no qual aborda o fato do silêncio se tornar uma personagem concreta nos mais variados tipos de relacionamento, certamente discorreria também sobre a forma como o silêncio de informações acerca da história do bêbado e da tal Alzira ocasionou devaneios generalizados em toda uma família. Por não se saber de quem se trata, cada um colocou a imagem de Alzira em posição idílica. Ela se tornou a concretização dos sonhos mais eloquentes.
E por falar na vã filosofia de algumas expressões, o que dizer de alguns hits ridículos que somos obrigados a engolir de maneira exaustiva, mas não deixam de trazer uma certa carga reflexiva? Ou alguém vai negar que "cada um no seu quadrado" mostra uma sabedoria "ultramoderna" de aceitação de limites, respeito à individualidade e espaço alheios e tudo mais que é "politicamente correto"?
O ganhador do primeiro Big Brother brasileiro," Kleber Bambam", instaurou um chavão digno de muitos pensadores: "Faz parte". E o que não faz parte? Tudo não está correlacionado?
Não se pretende aqui fazer apologia a músicas e frases com qualidade, no mínimo, altamente discutíveis, mas vale registrar como aspectos dignos de profundas reflexões nascem assim de palavras tão descompromissadas...
Faz parte....

sábado, 28 de março de 2009

domingo, 8 de março de 2009

Mulheres...

“ Que intimidade ancestral
Têm as mulheres
Não apenas com legumes
Lençóis talheres
E comprimidos.
Que baús trazem no útero
Que universos perdidos
Que pérolas
Nos olhos
Que pencas de suspiros
Como se os mínimos objetos
Fossem também seus filhos.”
Afonso Romano de Sant'anna

sexta-feira, 6 de março de 2009

Máscaras no curso, no discurso, na vida...


O tempo das imagens: caleidoscópio de máscaras....voyeurismo total! O universo cibernético desnudou até mesmo aquela prima mais casta. Tudo virou público, futricado, estereotipado. Mas mesmo com tantos blogs, sites, vídeos, podcast etc, nenhuma tecnologia é capaz de alcançar a fotografia real de um ser. A essência nunca é escancarada. Doamos sempre a platônica réplica das réplicas. Toda confissão é mero simulacro do real. Assim como "... a melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada..."( Machado de Assis), nenhum olhar, gesto, ou sorriso esboça uma só gota do peso de uma alma.

Quanto mais buscamos a total exteriorização do cru, mais temos a chance de pisar no terreno da ficção e aí.... viramos seres "virtuais": inventamos histórias, enfatizamos fatos corriqueiros, amenizamos dores nada fantásticas, ornamentamos sentimentos banais.

Num carnaval ao avesso, não nos dirigimos aos outros indagando, como na canção de Chico " Quem é você, diga logo que eu quero saber o seu jogo". Ao invés de tirarmos as máscaras descobrindo as faces verídicas, fabricamos outras tantas e trocamo-las num ritual de desencontros que remete a outro verso da referida música ... " Mas é carnaval, não me diga mais quem é você... O que você pedir eu lhe dou...Seja você quem for, seja o que Deus quiser ." Criamos uma vida ficcional que se entrelaça com o próprio cotidiano. Onde termina o real e começa o mero devaneio? No fundo tudo é um grande saco de serpentinas e lantejoulas. Meramente sugestão.... e ficamos sempre embriagados com o brilho artificial do fingimento, tal qual o brilho das estrelas -lâmpadas há muito tempo apagadas...

segunda-feira, 2 de março de 2009

O Curioso Caso de Benjamin Button

Difícil distinguir qual cena seria a mais densa do filme. Mas o tic-tac do relógio interno da personagem Daisy, escancarado no seu olhar que sucumbe à dor de enxergar um Benjamim cada vez mais menino, enquanto ela sente o rastro do tempo em cada nova ruga, não me deixou parar de relembrar os versos de Cecília Meireles...
Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?