sábado, 25 de abril de 2009

Estranhamentos

Minha lente é feminina, por isso às vezes ela pode ser sem foque ou exagerada.
As reticências da escrita são mil labirintos que deixo...portas abertas para um não sei o quê, não sei de onde, não sei de quem...
Mudanças bruscas de humor também podem ser percebidas de uma palavra à outra. Nuances de uma personalidade vasta em interrogações. No mais, sou um bicho estranho: "Só as mulheres sangram."
Também é comum um aperto aqui dentro....onde está meu manual de instrução? Não sei lidar nem com o lado o corpo, nem com o lado alma dessa máquina chamada vida.
Que confusão? A de sempre! A falta de rumo e de prumo. Vontade de ocupar todos os espaços ao mesmo tempo.
Transformo-me tanto para continuar sendo eu mesma. Quanto mais procuro partir, ir mais longe, mais marcas do início, da semente carrego.
Finjo não saber o que realmente quero, disfarço....pareço acreditar nas verdades que os outros me contam sobre meu próprio ser.
Finjo, atriz completa que não consigo ser, ao encenar uma personagem que é minha própria imagem.
Pareço que sou feita de ecos do passado. Mal vivo o presente já com ânsia de que ele ganhe morosa camada de poeira própria dos terrenos da memória. Como se a história, o registro, a lembrança fossem superiores ao próprio fato. Ou como se eu preferisse o reconto como forma de modificar os fatos.
O único consolo que tenho é saber que não sou a única estratificada. Tudo é incompleto e fragmentado. Até mesmo estes escritos que se almejam "confidências" são apenas parcelas mínimas de tudo que queria exteriorizar por meio das palavras....
Mas é bom me assumir como ser ambíguo, uma quase enigmática Capitu como toda mulher sabe ser. E por falar dessa persona tão famosa, deixo aqui a letra e vídeo da música " Capitu" de Luiz Tatit.

Capitu
Composição: Luiz Tatit

De um lado vem você com seu jeitinho
Hábil, hábil, hábil
E pronto!
Me conquista com seu dom

De outro esse seu site petulante
WWW
Ponto
Poderosa ponto com

É esse o seu modo de ser ambíguo
Sábio, sábio
E todo encanto
Canto, canto
Raposa e sereia da terra e do mar
Na tela e no ar

Você é virtualmente amada amante
Você real é ainda mais tocante
Não há quem não se encante

Um método de agir que é tão astuto
Com jeitinho alcança tudo, tudo, tudo
É só se entregar, é não resistir, é capitular

Capitu
A ressaca dos mares
A sereia do sul
Captando os olhares
Nosso totem tabu
A mulher em milhares
Capitu

No site o seu poder provoca o ócio, o ócio
Um passo para o vício, o vício
É só navegar, é só te seguir, e então naufragar

Capitu
Feminino com arte
A traição atraente
Um capítulo à parte
Quase vírus ardente
Imperando no site
Capitu


sexta-feira, 3 de abril de 2009

(Nada) vã filosofia de boteco

Os bares condensam ideias plausíveis. São incontáveis as parcerias, músicas, projetos viáveis(ou não) que surgiram sob a filosofia boêmia de botecos.
Minha família inteira repete uma frase, aparentemente sem nexo, ouvida há muito tempo por um primo meu. Ele estava passando por uma dessas cidadezinhas aqui do norte de Minas que não me recordo o nome e viu um bêbado acordar na porta de um bar e proferir de forma bem enfática : " Eh saudade de Alzira! "
Pronto! Na primeira cachacinha com os amigos, ele repetiu a frase e contou a história do bêbado. Alzira passou a ser reclamada e aclamada por toda a família. Quando alguém está cansado, ou com uma melancolia pungente, ou simplesmente triste: é saudade de Alzira! Esse nome passou a ser como a Pasárgada de Manuel Bandeira... se as coisas estão ruins: Grite por Alzira!
Se a escritora Lya Luft resolvesse colocar essa minha história familiar no seu livro de contos "O silêncio dos amantes", no qual aborda o fato do silêncio se tornar uma personagem concreta nos mais variados tipos de relacionamento, certamente discorreria também sobre a forma como o silêncio de informações acerca da história do bêbado e da tal Alzira ocasionou devaneios generalizados em toda uma família. Por não se saber de quem se trata, cada um colocou a imagem de Alzira em posição idílica. Ela se tornou a concretização dos sonhos mais eloquentes.
E por falar na vã filosofia de algumas expressões, o que dizer de alguns hits ridículos que somos obrigados a engolir de maneira exaustiva, mas não deixam de trazer uma certa carga reflexiva? Ou alguém vai negar que "cada um no seu quadrado" mostra uma sabedoria "ultramoderna" de aceitação de limites, respeito à individualidade e espaço alheios e tudo mais que é "politicamente correto"?
O ganhador do primeiro Big Brother brasileiro," Kleber Bambam", instaurou um chavão digno de muitos pensadores: "Faz parte". E o que não faz parte? Tudo não está correlacionado?
Não se pretende aqui fazer apologia a músicas e frases com qualidade, no mínimo, altamente discutíveis, mas vale registrar como aspectos dignos de profundas reflexões nascem assim de palavras tão descompromissadas...
Faz parte....

sábado, 28 de março de 2009

domingo, 8 de março de 2009

Mulheres...

“ Que intimidade ancestral
Têm as mulheres
Não apenas com legumes
Lençóis talheres
E comprimidos.
Que baús trazem no útero
Que universos perdidos
Que pérolas
Nos olhos
Que pencas de suspiros
Como se os mínimos objetos
Fossem também seus filhos.”
Afonso Romano de Sant'anna

sexta-feira, 6 de março de 2009

Máscaras no curso, no discurso, na vida...


O tempo das imagens: caleidoscópio de máscaras....voyeurismo total! O universo cibernético desnudou até mesmo aquela prima mais casta. Tudo virou público, futricado, estereotipado. Mas mesmo com tantos blogs, sites, vídeos, podcast etc, nenhuma tecnologia é capaz de alcançar a fotografia real de um ser. A essência nunca é escancarada. Doamos sempre a platônica réplica das réplicas. Toda confissão é mero simulacro do real. Assim como "... a melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada..."( Machado de Assis), nenhum olhar, gesto, ou sorriso esboça uma só gota do peso de uma alma.

Quanto mais buscamos a total exteriorização do cru, mais temos a chance de pisar no terreno da ficção e aí.... viramos seres "virtuais": inventamos histórias, enfatizamos fatos corriqueiros, amenizamos dores nada fantásticas, ornamentamos sentimentos banais.

Num carnaval ao avesso, não nos dirigimos aos outros indagando, como na canção de Chico " Quem é você, diga logo que eu quero saber o seu jogo". Ao invés de tirarmos as máscaras descobrindo as faces verídicas, fabricamos outras tantas e trocamo-las num ritual de desencontros que remete a outro verso da referida música ... " Mas é carnaval, não me diga mais quem é você... O que você pedir eu lhe dou...Seja você quem for, seja o que Deus quiser ." Criamos uma vida ficcional que se entrelaça com o próprio cotidiano. Onde termina o real e começa o mero devaneio? No fundo tudo é um grande saco de serpentinas e lantejoulas. Meramente sugestão.... e ficamos sempre embriagados com o brilho artificial do fingimento, tal qual o brilho das estrelas -lâmpadas há muito tempo apagadas...