quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O meu olhar é nítido como um girassol (Alberto Caeiro)

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Reticências

Ontem comentei, num grupo de pessoas, sobre uma crônica que saiu no jornal esta semana e falava sobre ciganos. Cada um começou a descrever a imagem que possui desse povo intrigante(para dizer o mínimo) e, nesse clima amistoso, um senhor já nos seus quase setenta anos, abriu um sorriso largo que nem mesmo seu bigode grisalho e espesso pode ofuscar. Passou a mão pelos cabelos ainda fartos e afirmou: " Um dia eu conheci uma cigana...".
Ele ainda repetiu a frase, mas não prosseguiu. Também não precisava! Imaginamos tudo...
Não vou tentar descrever essas imagens. Diante de um passado se apresentando assim num olhar que rejuvenesceu décadas num átimo, o próprio silêncio se traduz em quimeras, carícias e desejos.
Num momento assim, viramos exímios artistas pintando o quadro em que a tal cigana desfila sua fisionomia reticente.
Tornamo-nos músicos manuseando extintos instrumentos que ecoam uma canção que sinestesicamente cheira desejo.
Somos poetas em clássicas liras e repentistas no clarão nordestino.
Cada um, ao seu modo, dançou o ritmo da cigana, deixou que ela lesse os traços da mão e ensaiou um sorriso cúmplice de quem calado afirma de forma bem-humorada:" Senhor, sua lembrança é mais que mera recordação, são nossas próprias querenças sintetizadas numa idílica aventura cigana."

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Vírus do bem-querer

E se já não bastante tanta desumanização
Um vírus torna-nos ainda mais preconceituosos:
Evite aglomerados!!!
Evite contatos físicos!!! ( e lá se foram os raros abraços sobreviventes...)
Evite... ser gente!!!

Eu só queria um tantinho de ternura....
Poder receber o beijo que o amigo estala em minhas mãos
Vindo de remotas eras
A mão de minha mãe retirando um dos meus longos pelos dos cílios
Pendente ave decaída do meu olhar
O beijo i-no-cen-te-men-te úmido do meu afilhado
O aperto forte de mão daquele carinhoso moço de nome deslembrado
( irmão do tio da moça da padaria que é muito amiga da madrinha do meu primo)

Compartilhar com alguém um picolé de frutas
Tesouro encontrado no fundo da arca da amizade
Queria era o vírus do amor
Do querer bem
Vírus que fizesse até o mais árido coração
Despetalar margaridas
Petálas que ecoassem eternamente o "bem-me-quer".

terça-feira, 21 de julho de 2009

Peninhas rosas pela casa...



É assim que sempre acontece quando troco de quarto, ou mudo o guarda-roupa de lugar, ou simplesmente arrumo meu mundo de quinquilharias. Isso porque já me vesti de anjo quando criança e, de forma devota, no mês de maio me colocava sobre o altar de Nossa senhora, no meio de uma chuva de pétalas, a coroá-la sob vozes infantis tão estridentes quanto a minha.

Até hoje guardo as vestimentas de tal ritual: asas; cestinha para guardar as flores que pedia sorridente aos vizinhos; coroa digna de princesa, apesar do tempo insistir em amassá-la e o vestido longo de cetim feito por minha avó.

Num saco plástico, no fundo do maleiro, se escondem essas peças impregnadas de lembrança. No máximo empresto-as para uma ou outra criança, mas elas sempre voltam para mim. Basta avistá-las para recordar todas as cantigas à Maria que ainda guardo de cor, mais no coração do que na mente.

Assim, sempre que minhas peninhas de anjo perpassam pela casa, a criança que fui me espia com olhos diáfanos e surpresos.....

É estranho, pois não sou mais portadora daquela religiosidade pueril da menina, mas ao mesmo tempo sou a mesma.

O tempo passou rápido e no baú da vida cabe o "tudo" que se faz história (re)vivida nas simples peninhas rosas que pairam por aí........

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Quando a alma quer tirar férias

“O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.” (João Guimarães Rosa)


" (...) nós somos medo e desejo somos feitos de silêncio e som tem certas coisas que eu não sei dizer (...) (Milton Nascimento)


O dia: estrondo
Silêncio!
A alma roga clemência
para tentar se conhecer
E no abalo da descoberta...
((((((((((((((((((silenciosamente))))))))))))))))))
roga
por um mísero som
que lhe tire
daquela tempestade de ensimesmamento