quinta-feira, 1 de abril de 2010

O amor requer registros...

É uma forma de tentar eternizar o fulgaz momento. Adolescentes escrevem os nomes enamorados em troncos de árvores, capas de caderno, palma da mão...
Há circunspectos adultos que confessam, num misto de nostalgia e humor, que já escreveram em gomos de bambu para que o amor do casalzinho infantil crescesse junto com a planta. 
E o que dizer das cartas de amor??? Tentativa de dar nome para aquele sentimento que o significado está sempre além...em todo lugar/nenhum lugar: o querer bem!  
Outro dia recebi cartinha do meu namorado e lembrei-me dos versos de Fernando Pessoa sob a voz de Álvaro de Campo:

"Todas as cartas de amor são

Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
(...)

Álvaro de Campos, 21-10-1935  

Bom....não achei a cartinha do meu amor nada ridícula! Pelo contrário, bem real, repleta de sentimentos nobres e sonhos possíveis. Mas, se amar  e escrever cartinhas for mesmo patético, assumo a sina. Deem-me logo o narizinho vermelho que quero entrar na fantasia. Tanto que corri para responder as palavras amorosas.

A vida é efêmera...o amor quer se fazer eterno, palpável na sua matéria feita de quimeras, por isso exige registros...
Alguém sabe onde encontro um pé de bambu para desenhar as iniciais dentro de um coração??? Também nos imaginamos perenes nesses momentos...      

   

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Um mundo numa escova de dentes




Passar pelas ruas, seja a trabalho ou passeio, a pé ou motorizado, é navegar pelos mares de histórias que cada pessoa traz. Cada rosto anônimo na multidão é todo um universo, uma história, uma odisseia, uma religião. São montanhas de experiências, amores, ideologias, sonhos e ressentimentos...
Sempre gostei de imaginar o que está por trás de um rosto anônimo na multidão. A quantidade de subjetivismo na escolha de uma cor de cabelo, o grito de próprio casulo querendo se exteriorizar através de uma aparentemente simples vestimenta, tudo isso me fascina.
Ontem, o que me chamou a atenção fazendo a mente perambular por hipóteses mirabolantes foi uma escova de dentes branca perdida em meio ao tráfego descomunal da avenida mais movimentada de Montes Claros.
Aquela escova ali, imóvel em meio ao tumultuado cotidiano das pessoas não tinha nada de silenciosa, talvez trazia um tanto de mistério, mas, ainda que imóvel, como dizia aquela escova!
Para alguns, ela falava de um romance, brigas, separação passional de escovas e corpos: a bolsa arrumada às pressas, um zíper aberto e, por fim, ela caída ali.
Outros juram que ela narrou que caíra de uma mochila pertencente a um jovem que passara carnaval em Diamantina e chegando repleto de sono, nem percebera o sumiço involuntário da companheira higiênica.
Os mais taciturnos delongaram numa triste história de vida, afirmando que ela era instrumento de trabalho de um lavador de carro e motos que, ao voltar cansado do trabalho, não notou quando ela caíra da sacolinha plástica.
A escova falou!!! Ali, no chão, ela era a imagem metonímica dos raros momentos em que nossa mente devaneia no eterno encantamento e enigma que é "a vida dos outros".

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Mas a vida não é um livro...


"... No livro da vida não se volta , quando se quer, a página já lida, para melhor entendê-la; nem pode se fazer a pausa necessária à reflexão. Os acontecimentos nos tomam e nos arrebatam, às vezes, tão rapidamente que nem deixam volver um olhar ao caminho pecorrido."


Lucíola- José de Alencar

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Rápido comentário:

Para mim, a melhor definição do amor foi feita de forma condensada:

Amor
Humor

Poeminha pequeno de Oswald de Andrade que assim, na sua aparente singeleza, resume o ingrediente precioso para os quitudes amorosos. Há de existir o riso sempre... é a dança da alma, é o que desanuvia os olhos, é a engrenagem da vida! Rir junto com a pessoa amada é melhor que a duplinha mineira queijo com goiabada; é melhor que as noites de sexta-feira(promessa de um final de semana inteiro); melhor que feriado na segunda-feira.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Semáforo


As palavras mais densas surgem de onde não há... onde o silêncio impera e as lacunas criam frestas que sopram o vento das histórias ofuscadas. O anonimato, a falta de detalhes sobre um determinado fato, ou o simples restante não narrado de um caso instigam a alma e ela devaneia pairando sobre esses ocos inspiradores gerados pelo silêncio.
" Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores
que eu não sei o nome" (Adriana Calcanhoto_ Esquadros) e trafegando pelo vasto mundo de imagens, palavras e caos de minha cidade, deparei-me com uma declaração de amor exposta em um outdoor. Ah o amor!!! Exposto ali, no meio das mais comerciais e capitalistas das avenidas, lugar por onde todos passam para as mais atribuladas atividades e ele ali: o amor exposto assim como se fosse algo que não se percebesse, como se estivesse ali apenas para mandar um recado individual para a pessoa amada tal qual bilhete na geladeira, batom no espelho.
Apesar de exposto de forma hiperbólica em imensa placa, a declaração era realmente dirigida de forma hermética a apenas uma pessoa: não possuía o nome do destinatário, nem remetente. Não se sabe nem mesmo a opção sexual dos amantes. E o que importa? Importa é o quanto a mente trabalha ao ler aquelas letras garrafais. Interessante é o quanto se passea pelo interdito. Sabe-se apenas de um amor grande, de uma hipotética separação...tudo são cacos que se cola com a mais interessante das substâncias: a imaginação. Ao tentar entender o manancial sob aquele outdoor, entremeia-se o silêncio com cenas vividas, filmes, músicas, bilhetes...cada um pode inventar seu próprio amor e quando o semáforo se abre, todos aceleram com um sorriso breve, cada um imerso no seu próprio mundo amoroso...

terça-feira, 25 de agosto de 2009

FANTASIAS....

"O peixe que não foi pescado é sempre grande." (Provérbio chinês)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Fatalidades...

"Cada um sabe a dor
E a delícia
De ser o que é..."
( Dom de iludir - Caetano Veloso)

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O meu olhar é nítido como um girassol (Alberto Caeiro)

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Reticências

Ontem comentei, num grupo de pessoas, sobre uma crônica que saiu no jornal esta semana e falava sobre ciganos. Cada um começou a descrever a imagem que possui desse povo intrigante(para dizer o mínimo) e, nesse clima amistoso, um senhor já nos seus quase setenta anos, abriu um sorriso largo que nem mesmo seu bigode grisalho e espesso pode ofuscar. Passou a mão pelos cabelos ainda fartos e afirmou: " Um dia eu conheci uma cigana...".
Ele ainda repetiu a frase, mas não prosseguiu. Também não precisava! Imaginamos tudo...
Não vou tentar descrever essas imagens. Diante de um passado se apresentando assim num olhar que rejuvenesceu décadas num átimo, o próprio silêncio se traduz em quimeras, carícias e desejos.
Num momento assim, viramos exímios artistas pintando o quadro em que a tal cigana desfila sua fisionomia reticente.
Tornamo-nos músicos manuseando extintos instrumentos que ecoam uma canção que sinestesicamente cheira desejo.
Somos poetas em clássicas liras e repentistas no clarão nordestino.
Cada um, ao seu modo, dançou o ritmo da cigana, deixou que ela lesse os traços da mão e ensaiou um sorriso cúmplice de quem calado afirma de forma bem-humorada:" Senhor, sua lembrança é mais que mera recordação, são nossas próprias querenças sintetizadas numa idílica aventura cigana."

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Vírus do bem-querer

E se já não bastante tanta desumanização
Um vírus torna-nos ainda mais preconceituosos:
Evite aglomerados!!!
Evite contatos físicos!!! ( e lá se foram os raros abraços sobreviventes...)
Evite... ser gente!!!

Eu só queria um tantinho de ternura....
Poder receber o beijo que o amigo estala em minhas mãos
Vindo de remotas eras
A mão de minha mãe retirando um dos meus longos pelos dos cílios
Pendente ave decaída do meu olhar
O beijo i-no-cen-te-men-te úmido do meu afilhado
O aperto forte de mão daquele carinhoso moço de nome deslembrado
( irmão do tio da moça da padaria que é muito amiga da madrinha do meu primo)

Compartilhar com alguém um picolé de frutas
Tesouro encontrado no fundo da arca da amizade
Queria era o vírus do amor
Do querer bem
Vírus que fizesse até o mais árido coração
Despetalar margaridas
Petálas que ecoassem eternamente o "bem-me-quer".

terça-feira, 21 de julho de 2009

Peninhas rosas pela casa...



É assim que sempre acontece quando troco de quarto, ou mudo o guarda-roupa de lugar, ou simplesmente arrumo meu mundo de quinquilharias. Isso porque já me vesti de anjo quando criança e, de forma devota, no mês de maio me colocava sobre o altar de Nossa senhora, no meio de uma chuva de pétalas, a coroá-la sob vozes infantis tão estridentes quanto a minha.

Até hoje guardo as vestimentas de tal ritual: asas; cestinha para guardar as flores que pedia sorridente aos vizinhos; coroa digna de princesa, apesar do tempo insistir em amassá-la e o vestido longo de cetim feito por minha avó.

Num saco plástico, no fundo do maleiro, se escondem essas peças impregnadas de lembrança. No máximo empresto-as para uma ou outra criança, mas elas sempre voltam para mim. Basta avistá-las para recordar todas as cantigas à Maria que ainda guardo de cor, mais no coração do que na mente.

Assim, sempre que minhas peninhas de anjo perpassam pela casa, a criança que fui me espia com olhos diáfanos e surpresos.....

É estranho, pois não sou mais portadora daquela religiosidade pueril da menina, mas ao mesmo tempo sou a mesma.

O tempo passou rápido e no baú da vida cabe o "tudo" que se faz história (re)vivida nas simples peninhas rosas que pairam por aí........

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Quando a alma quer tirar férias

“O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.” (João Guimarães Rosa)


" (...) nós somos medo e desejo somos feitos de silêncio e som tem certas coisas que eu não sei dizer (...) (Milton Nascimento)


O dia: estrondo
Silêncio!
A alma roga clemência
para tentar se conhecer
E no abalo da descoberta...
((((((((((((((((((silenciosamente))))))))))))))))))
roga
por um mísero som
que lhe tire
daquela tempestade de ensimesmamento

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Para uma semana enrolada: Quintana!!!

O Deixador (Mário Quintana)

Eu tenho mania de deixar tudo para depois...
Depois a contagem das cartas a responder...
Depois a arrumação das coisas...
Depois, Adalgisa... Ah,
Me lembrar mais uma vez de romper definitivamente com Adalgisa!
Depois, tanta, tanta coisa...
Depois o testamento as últimas vontades a morte.
Só porque vai sempre deixando tudo para depois
É que Deus é eterno
E o mundo incompleto
Inquieto...
Só é verdadeiramente vida a que tem um inquieto depois!
(Baú de Espantos)

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Tudo está escrito...

"O tempo, o tempo, o tempo e suas águas inflamáveis, esse rio largo que não cansa de correr, lento e sinuoso...". (Lavoura Arcaica)
Domingo assisti ao aclamado filme "Quem quer ser um milionário?". O fio codutor da narrativa é o aforismo "Tudo está escrito". Fiquei pensando sobre essa afirmativa e lembrei-me de um caso familiar...
O escritor Roberto Drumond sempre escrevia histórias sobre fatos cotidianos, familiares mesmo, usando como argumento a máxima do escritor russo Ivan Turgueniev "Se você tem uma família, não precisa inventar outra, é só escrever sobre ela".
Bom, vou seguir o mesmo caminho para mostrar meu exemplo de que "tudo está escrito". Meu personagem é um tio, o primogênito da minha família paterna. Ele, ainda muito jovem, saiu de Montes Claros e viveu suas andanças por 29 anos e hoje, já sexagenário, reside aqui há uns 15 anos . Mas assim já termino a história sem contar o mais interessante...."o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia" (João Guimarães Rosa).
Então, vamos pelas beiradas dos fatos onde sempre estão as melhores histórias: as não registradas, ditas nas cozinhas em clima mineiramente intimista.
Meu tio mais velho sempre foi um enigma para mim, figura brilhante tanto pelo corpo vasto em dimensões como pela sua ausência/presença que sempre marcou o clã familiar. Desse tio sabia pouco. Sabia que fazia muito tempo que havia partido depois de uma briga com meu avô. Sabia que tornara-se um caminhoneiro e que já havia cortado quase todo o Brasil e países fronteiros. Dele, tinha apenas a nebulosa imagem surgida de umas cartas rareadas e de uma foto na qual ele fazia pose junto a um caminhão.
Tinha também a longíqua lembrança dos carinhos que dele recebi numa remota visita que ele nos fizera.
Mas um dia esse tio retornou. Vibrei com a notícia e corri para casa de minha avó para revê-lo. Que decepção.... Com tanta distância, meu tio era um estranho, não tínhamos o que conversar, a timidez tomou conta do que deveria ser só afetos.
Meu tio acabou retornando de vez, tornou-se novamente um de nós ainda que continue um tanto estranho pela bagagem de aventuras que carrega na memória. Vira e mexe uma dessas lembranças aparece num diálogo corriqueiro e aí vem o susto por tanta coisa vivida.
Ontem, suas andanças vieram à tona novamente e meu irmão perguntou-lhe o real porquê de sua partida. Logo vi que era um momento meio divã, a revelação que sairia seria sempre pesada.
Não há como fugir....ouvi de novo a história de uma avô que era de uma bondade emocionante, mas que, sob os desígnios do álcool, tornava-se um ser ireconhecível. Meu tio afirmou que tinha uma ideologia que levava-o a crer que no dia que precisasse levantar a voz para o próprio pai deveria sair de casa e seguir seu caminho. Esse dia chegou: meu avô violentou meu pai, ainda menino, devido a bebida e meu tio, para não ver o irmão apanhando, saiu em defesa do pequeno e quando viu já estava trocando empurrões com pai na rua. Juntou gente, veio a vergonha e dali a decisão talvez já pensada: era preciso partir.
Ele foi primeiro para São Paulo. Perambulou por quase duas semanas até conseguir o primeiro trabalho. Para ser aceito pelo chefe, bebeu sua primeira dose de cachaça e seguiu seu destino, ou pelo menos o que seu próprio tino atestava como coisa certa. Trabalhou de uma obra à outra, percorrendo várias cidades e depois, já nas boleias de carretas e caminhões, conheceu todos os estados, todas as capitais e vários países. Já morou em recôncavos, já foi atingido pelas mais variadas espécies de febre na região amazônica, já teve mulheres de todos os tipos.
Ia de um lugar a outro pelo simples prazer de conhecer.
Participou de várias obras importantes da história moderna do país. Se estava no final de um contrato em Belém e ouvia falar na construção de uma hidrelétrica no sul, logo arrumava seus pertences e partia. Nesses 29 anos só visitou Montes Claros três vezes. As cartas também eram muito esporádicas e só soube da morte do pai através de um telefonema uns três anos depois do acontecido.
Além da sede de conhecer tudo, o que o distanciava daqui era a sede, inerente a todos que saem do lar, de voltar com a situação financeira bem resolvida.
O dinheiro que ganhava era numeroso, mas fluido. Como se assumiu como um andejo, não tinha endereço nem posses e o que ganhava ia embora com facilidade.
Mas um dia ele prometeu que viria .... num dia das mães.... foi o dia já mencionado que senti vergonha daquele tio do qual, descobri naquele momento, não conhecia nada.
O retorno ao lar não foi assim fácil, mas ele sabia que se não se acostumasse, se partisse de novo, não retornaria.
E entre uma conversa e outra ele sempre topava com uma irmã de seu cunhado, moça já beirando os quarenta, mas ainda solteira.
Entre uma dança e outra, um dia ela estava voltando para sua casa de mulher independente e ele fez a proposta: "Eu vou com você". Ela aceitou __ com o tempo, aprende-se a não perder a vida em formalismos. E meu tio ficou de vez. Hoje é homem da terrinha como nenhum outro: vive na roça, mas tem também sua casinha cá na cidade, seu carrinho, já se aposentou e agora, nos cuidades de administrar bens e família, acha muito engraçado ter um endereço para receber a correspondência bancária.
TUDO ESTÁ ESCRITO. E no enredo dele, já estava registrado que ele iria rodar o mundo e reencontrar um amor que crescera ali: bem ao lado da casa materna. Só precisava do tempo com suas esquisitices

sábado, 25 de abril de 2009

Estranhamentos

Minha lente é feminina, por isso às vezes ela pode ser sem foque ou exagerada.
As reticências da escrita são mil labirintos que deixo...portas abertas para um não sei o quê, não sei de onde, não sei de quem...
Mudanças bruscas de humor também podem ser percebidas de uma palavra à outra. Nuances de uma personalidade vasta em interrogações. No mais, sou um bicho estranho: "Só as mulheres sangram."
Também é comum um aperto aqui dentro....onde está meu manual de instrução? Não sei lidar nem com o lado o corpo, nem com o lado alma dessa máquina chamada vida.
Que confusão? A de sempre! A falta de rumo e de prumo. Vontade de ocupar todos os espaços ao mesmo tempo.
Transformo-me tanto para continuar sendo eu mesma. Quanto mais procuro partir, ir mais longe, mais marcas do início, da semente carrego.
Finjo não saber o que realmente quero, disfarço....pareço acreditar nas verdades que os outros me contam sobre meu próprio ser.
Finjo, atriz completa que não consigo ser, ao encenar uma personagem que é minha própria imagem.
Pareço que sou feita de ecos do passado. Mal vivo o presente já com ânsia de que ele ganhe morosa camada de poeira própria dos terrenos da memória. Como se a história, o registro, a lembrança fossem superiores ao próprio fato. Ou como se eu preferisse o reconto como forma de modificar os fatos.
O único consolo que tenho é saber que não sou a única estratificada. Tudo é incompleto e fragmentado. Até mesmo estes escritos que se almejam "confidências" são apenas parcelas mínimas de tudo que queria exteriorizar por meio das palavras....
Mas é bom me assumir como ser ambíguo, uma quase enigmática Capitu como toda mulher sabe ser. E por falar dessa persona tão famosa, deixo aqui a letra e vídeo da música " Capitu" de Luiz Tatit.

Capitu
Composição: Luiz Tatit

De um lado vem você com seu jeitinho
Hábil, hábil, hábil
E pronto!
Me conquista com seu dom

De outro esse seu site petulante
WWW
Ponto
Poderosa ponto com

É esse o seu modo de ser ambíguo
Sábio, sábio
E todo encanto
Canto, canto
Raposa e sereia da terra e do mar
Na tela e no ar

Você é virtualmente amada amante
Você real é ainda mais tocante
Não há quem não se encante

Um método de agir que é tão astuto
Com jeitinho alcança tudo, tudo, tudo
É só se entregar, é não resistir, é capitular

Capitu
A ressaca dos mares
A sereia do sul
Captando os olhares
Nosso totem tabu
A mulher em milhares
Capitu

No site o seu poder provoca o ócio, o ócio
Um passo para o vício, o vício
É só navegar, é só te seguir, e então naufragar

Capitu
Feminino com arte
A traição atraente
Um capítulo à parte
Quase vírus ardente
Imperando no site
Capitu


sexta-feira, 3 de abril de 2009

(Nada) vã filosofia de boteco

Os bares condensam ideias plausíveis. São incontáveis as parcerias, músicas, projetos viáveis(ou não) que surgiram sob a filosofia boêmia de botecos.
Minha família inteira repete uma frase, aparentemente sem nexo, ouvida há muito tempo por um primo meu. Ele estava passando por uma dessas cidadezinhas aqui do norte de Minas que não me recordo o nome e viu um bêbado acordar na porta de um bar e proferir de forma bem enfática : " Eh saudade de Alzira! "
Pronto! Na primeira cachacinha com os amigos, ele repetiu a frase e contou a história do bêbado. Alzira passou a ser reclamada e aclamada por toda a família. Quando alguém está cansado, ou com uma melancolia pungente, ou simplesmente triste: é saudade de Alzira! Esse nome passou a ser como a Pasárgada de Manuel Bandeira... se as coisas estão ruins: Grite por Alzira!
Se a escritora Lya Luft resolvesse colocar essa minha história familiar no seu livro de contos "O silêncio dos amantes", no qual aborda o fato do silêncio se tornar uma personagem concreta nos mais variados tipos de relacionamento, certamente discorreria também sobre a forma como o silêncio de informações acerca da história do bêbado e da tal Alzira ocasionou devaneios generalizados em toda uma família. Por não se saber de quem se trata, cada um colocou a imagem de Alzira em posição idílica. Ela se tornou a concretização dos sonhos mais eloquentes.
E por falar na vã filosofia de algumas expressões, o que dizer de alguns hits ridículos que somos obrigados a engolir de maneira exaustiva, mas não deixam de trazer uma certa carga reflexiva? Ou alguém vai negar que "cada um no seu quadrado" mostra uma sabedoria "ultramoderna" de aceitação de limites, respeito à individualidade e espaço alheios e tudo mais que é "politicamente correto"?
O ganhador do primeiro Big Brother brasileiro," Kleber Bambam", instaurou um chavão digno de muitos pensadores: "Faz parte". E o que não faz parte? Tudo não está correlacionado?
Não se pretende aqui fazer apologia a músicas e frases com qualidade, no mínimo, altamente discutíveis, mas vale registrar como aspectos dignos de profundas reflexões nascem assim de palavras tão descompromissadas...
Faz parte....

sábado, 28 de março de 2009

domingo, 8 de março de 2009

Mulheres...

“ Que intimidade ancestral
Têm as mulheres
Não apenas com legumes
Lençóis talheres
E comprimidos.
Que baús trazem no útero
Que universos perdidos
Que pérolas
Nos olhos
Que pencas de suspiros
Como se os mínimos objetos
Fossem também seus filhos.”
Afonso Romano de Sant'anna

sexta-feira, 6 de março de 2009

Máscaras no curso, no discurso, na vida...


O tempo das imagens: caleidoscópio de máscaras....voyeurismo total! O universo cibernético desnudou até mesmo aquela prima mais casta. Tudo virou público, futricado, estereotipado. Mas mesmo com tantos blogs, sites, vídeos, podcast etc, nenhuma tecnologia é capaz de alcançar a fotografia real de um ser. A essência nunca é escancarada. Doamos sempre a platônica réplica das réplicas. Toda confissão é mero simulacro do real. Assim como "... a melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada..."( Machado de Assis), nenhum olhar, gesto, ou sorriso esboça uma só gota do peso de uma alma.

Quanto mais buscamos a total exteriorização do cru, mais temos a chance de pisar no terreno da ficção e aí.... viramos seres "virtuais": inventamos histórias, enfatizamos fatos corriqueiros, amenizamos dores nada fantásticas, ornamentamos sentimentos banais.

Num carnaval ao avesso, não nos dirigimos aos outros indagando, como na canção de Chico " Quem é você, diga logo que eu quero saber o seu jogo". Ao invés de tirarmos as máscaras descobrindo as faces verídicas, fabricamos outras tantas e trocamo-las num ritual de desencontros que remete a outro verso da referida música ... " Mas é carnaval, não me diga mais quem é você... O que você pedir eu lhe dou...Seja você quem for, seja o que Deus quiser ." Criamos uma vida ficcional que se entrelaça com o próprio cotidiano. Onde termina o real e começa o mero devaneio? No fundo tudo é um grande saco de serpentinas e lantejoulas. Meramente sugestão.... e ficamos sempre embriagados com o brilho artificial do fingimento, tal qual o brilho das estrelas -lâmpadas há muito tempo apagadas...

segunda-feira, 2 de março de 2009

O Curioso Caso de Benjamin Button

Difícil distinguir qual cena seria a mais densa do filme. Mas o tic-tac do relógio interno da personagem Daisy, escancarado no seu olhar que sucumbe à dor de enxergar um Benjamim cada vez mais menino, enquanto ela sente o rastro do tempo em cada nova ruga, não me deixou parar de relembrar os versos de Cecília Meireles...
Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?