terça-feira, 11 de julho de 2017

"Só levo a certeza de que muito pouco eu sei, ou nada sei"

       Há quanto tempo não passo por essas paragens? Hoje precisei vir me visitar. O silêncio não foi falta de deslumbramentos cotidianos. Pelo contrário, a chegada da minha filha trouxe-me um espiral de poesia pura: a vida consubstanciada em pequenos gestos, toques, sons. Sim. Não escrevi muito. Mas observei com mais força as minhas redondezas: enquanto empurrava o carrinho de bebê no sol da manhã, vi a mulher passando com um monte de malva para fazer vassoura. Essa imagem me jogou na minha infância de visitas a lugares de muitas árvores e terreiros de chão firme, terra clara, incrivelmente limpos pelas vassouras de mato. 
     Senti a maternidade mudar e moldar também outras amigas e vi cumplicidade nisso. Perdi-me em álbuns de fotografias para já ajuntar as frestas da própria história que minha filha vai contar sobre si mesma. Reinventei-me no trabalho, passei por muito aprendizado também pessoal e, no meio disso tudo, é preciso sempre verificar se ainda estamos lá.  Os versos de Milton Nascimento nunca deixaram de ecoar aqui dentro "Por tanto amor, por tanta emoção /A vida me fez assim / Doce ou atroz, manso ou feroz / Eu, caçador de mim [...]"  
    É duro perceber que a idade não traz todas as respostas. Sentadas tomando um açaí, nos raros momentos que o tempo nos deixa apenas curtir o tempo,  eu e minha amiga de outras eras ainda temos as mesmas inquietações da época da faculdade. É claro que o tempo traz  algumas respostas: a paz do amor companheiro, as alegrias e tristezas divididas com amigos de verdade, o aprendizado com os filhos, a necessidade de se aproveitar a dádiva do presente. Mas algumas lacunas ficam e é  nesse espaço que mora o novo, a criatividade, o sonho. As pessoas mais admiráveis que conheço são humanamente incompletas e é bom  sentir tanto o divino que se manifesta em cada ser, como também nossa mediocridade humana.
     Mas ainda assim, é preciso rascunhar respostas e repetir as mesmas perguntas: O que me move? Sou a melhor versão de mim? Quais referências quero deixar para meus filhos? As perguntas mudam, cada um tem as suas. Mas a labuta em busca das respostas é importante. Para tanto, é bom que não nos afastemos muito. E o que nos traz para perto da verdadeira essência? Pode ser um trecho de um filme, uma oração, a imagem das mãos longas, sábias e boas do avó que já se foi, pode ser o sorriso de um filho, pode ser a adrenalina do esporte, pode ser o som da risada dos amigos, pode ser o cheiro dos lençóis da sua terra natal, pode ser o desenho do próximo projeto, a  cor do produto do que antes era hobby e virou achado de vida, ou a luz da tela do computador no processo de escrita. Esses fragmentos de "eu" que nos formam, e tudo que é humano é um mosaico bonito de ser observado. Sigamos espiando.


                 (Imagem: http://rosemarientreaspas.blogspot.com.br/2013/09/vassoura-de-guanxuma.html)

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