sábado, 2 de março de 2019

   Por uma vida de olhares menos automatizados

   O peixe precisa ser temperado agora para que fique no ponto na hora que for para o forno, as hortaliças trazidas do mercado pelo marido precisam ser guardadas, minha filha precisa ser orientada a ir arrumar os brinquedos que deixou espelhados, meu pai precisa que eu me sente um pouco e converse com ele no nosso eterno diálogo de palavras repetidas para que ele consiga ouvir adequadamente, mas fujo por uns instantes para finalizar a leitura pungente e leve de “A vida que ninguém vê” da premiadíssima repórter Eliane Brum. 
   Por um momento, esqueço toda essa trivialidade que nos consome e deturpa nossos olhos. É preciso enxergar além, sair do nosso cotidiano de obrigações e obstáculos infindos. É preciso ter o olhar do cronista que se deslumbra diante das histórias que, de tão comuns, tornam-se extraordinárias. 
   Com a missão de extrair crônicas reais de rostos tão comuns, a jornalista contou histórias como a do gaúcho do cavalo de pau, visto por toda a cidade como louco, entretanto, quando indagado pela repórter, revelou que sabia que seu cavalo era uma vassoura, mas montado nele sonhava que estava num cavalo de verdade, porque “sem invenção a vida fica sem graça. Fica tudo muito difícil”.
    E assim, finda a leitura, posso voltar para os meus rituais de sábado sabendo que esses momentos representam uma subversão à realidade. São essas pausas imersas na ficção, ou na fenda quase inexistente entre vida e arte, que busco forças para compreender nosso quinhão humano e, consequentemente, sempre efêmero. Sem esquecer que tudo vai depender sempre do jeito de olhar.

terça-feira, 11 de julho de 2017

"Só levo a certeza de que muito pouco eu sei, ou nada sei"

       Há quanto tempo não passo por essas paragens? Hoje precisei vir me visitar. O silêncio não foi falta de deslumbramentos cotidianos. Pelo contrário, a chegada da minha filha trouxe-me um espiral de poesia pura: a vida consubstanciada em pequenos gestos, toques, sons. Sim. Não escrevi muito. Mas observei com mais força as minhas redondezas. Enquanto empurrava o carrinho de bebê no sol da manhã, vi a mulher passando com um monte de malva para fazer vassoura. Essa imagem me jogou na minha infância de visitas a lugares de muitas árvores e terreiros de chão firme, terra clara, incrivelmente limpos pelas vassouras de mato. 
     Senti a maternidade mudar e moldar também outras amigas e vi cumplicidade nisso. Perdi-me em álbuns de fotografias para já ajuntar as frestas da própria história que minha filha vai contar sobre si mesma. Reinventei-me no trabalho, passei por muito aprendizado também pessoal e, no meio disso tudo, é preciso sempre verificar se ainda estamos lá.  Os versos de Milton Nascimento nunca deixaram de ecoar aqui dentro "Por tanto amor, por tanta emoção /A vida me fez assim / Doce ou atroz, manso ou feroz / Eu, caçador de mim [...]"  
    É duro perceber que a idade não traz todas as respostas. Sentadas tomando um açaí, nos raros momentos que o tempo nos deixa apenas curtir o tempo,  eu e minha amiga de outras eras ainda temos as mesmas inquietações da época da faculdade. É claro que o tempo traz  algumas respostas: a paz do amor companheiro, as alegrias e tristezas divididas com amigos de verdade, o aprendizado com os filhos, a necessidade de se aproveitar a dádiva do presente. Mas algumas lacunas ficam e é  nesse espaço que mora o novo, a criatividade, o sonho. As pessoas mais admiráveis que conheço são humanamente incompletas e é bom  sentir tanto o divino que se manifesta em cada ser, como também nossa mediocridade humana.
     Mas ainda assim, é preciso rascunhar respostas e repetir as mesmas perguntas: o que me move? Sou a melhor versão de mim? Quais referências quero deixar para meus filhos? As perguntas mudam, cada um tem as suas. Mas a labuta em busca das respostas é importante. Para tanto, é bom que não nos afastemos muito. E o que nos traz para perto da verdadeira essência? Pode ser um trecho de um filme, uma oração, a imagem das mãos longas, sábias e boas do avô que já se foi, pode ser o sorriso de um filho, pode ser a adrenalina do esporte, pode ser o som da risada dos amigos, pode ser o cheiro dos lençóis da sua terra natal, pode ser o desenho do próximo projeto, a  cor do produto do que antes era hobby e virou achado de vida, ou a luz da tela do computador no processo de escrita. Esses fragmentos de "eu" que nos formam, e tudo que é humano é um mosaico bonito de ser observado. Sigamos espiando.


                 (Imagem: http://rosemarientreaspas.blogspot.com.br/2013/09/vassoura-de-guanxuma.html)

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Beatriz

       Ontem escrevi seu nome em um tecido. Ao escolher a cor da linha, manusear a agulha e planejar o melhor desenho das letras, senti-me ligada às mães de todos os tempos. Cuidar dos detalhes para sua chegada e, principalmente, sentir você crescendo aqui dentro tem preenchido meus dias.
      Estou inserida no mistério mais encantador do universo. Mais do que no corpo, a vida  vai se consubstanciando em pequenos farelos. Enquanto você se forma, também uma mãe vai se construindo aqui fora entre a ansiedade e a alegria, percebendo suas reações a determinadas canções, à presença de algumas pessoas, em cada alimento que ingiro.
       Meu lado materno sempre foi latente. Envolvi-me, com sinceridade, no nascimento de priminhos, afilhados e filhos de amigos. Entretanto, muito além da parte prática de cuidados diários que você exigirá, o que mais me preocupa é como ajudá-la se formar como ser humano. Como dosar as quimeras e a razão? Como poupá-la das pequenas e grandes tragédias que envolvem o mundo? De que forma mostrar que a complexidade da vida também está presente nas coisas simples e, por vezes, banais?
     Sempre imaginamos que o momento ideal de se ter um filho é quando estamos realizados. Não falo somente de questões materiais e práticas como plano de saúde, grana para necessidades de última hora, teto, estabilidade profissional. Refiro-me à completude como pessoa. Ter respostas para (quase) tudo, já ter resolvido todos os dilemas existenciais. Hoje sei que se esperasse esse momento, você nunca chegarei. Filha, serei sua mãe com meu quinhão de erros, medos e pedaços, mas lanço-me ao desafio. Quero aprender com e por você. Não enxugarei as lágrimas que, mãe vulnerável que sou, você me verá derramar, mas espero nunca perder a capacidade de rir das minhas próprias trapalhadas.
      Às vezes, minha parcela humanamente egoísta anda temerosa de que eu me perca com sua chegada. Medo de mudar drasticamente os hábitos, não ter tempo para me deleitar com coisas que gosto... mas sei que, embora traga sérias mudanças, você será a minha parcela mais nobre, a quem dedicarei, com gosto, meus melhores momentos. Hoje tudo são conjunturas, mas em breve, meus medos serão concretizados em dilemas práticos. Agora, estou em estado de esperança: esperar, cheia de amor, por você.
   

terça-feira, 17 de abril de 2012

Fato consumado

"Se toda hora é hora
De dar decisão
Eu falo agora
No fundo eu julgo o mundo
Um fato consumado
E vou-me embora" (Djavan)

Ando nostálgica ultimamente...
Aquela mistura estranha de saudades de coisas que nem vivi e melancolia. Às vezes por causa de uma fachada de uma casa, uma ruela empoeirada, um samba antigo, um verso banal. 
Talvez pelas pressões que passei nos últimos tempos, pelo passo importante que vou dar daqui a pouquíssimos dias, só sei que ando saudosa das tardes preguiçosas da adolescência, de ter tempo para conversar com as amigas e de ler... sem obrigações... apenas para buscar o prazer das palavras. Apenas para penetrar o silêncio e tentar me encontrar.
Passei uma tarde de domingo maravilhosa com amigas e familiares. Que delícia reconhecer em cada história e olhar a amizade. Tão Bom ser paparicada e receber votos sinceros de felicidade. Melhor ainda é saber que a vida vai adicionando coisas novas, cenas inusitadas que, aos poucos, também vão se integrando a minha história.
Mas hoje, só um pouquinho, deixo as obrigações, medos e metas para ser nostálgica. Cantarolar os versos de Djavan que dançava sozinha na sala e pensar numa época em que ser 'adulto' e ter 30 era algo tão distante quanto a lua.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Não: Devagar

imagem: http://www.ociodooficio.com.br/

Fim de ano...
Cada um já preparando sua retrospectiva. Tenho a tendência de achar que o saldo é sempre positivo. Os obstáculos, mais do que meros sofrimentos, também são utilizados pela vida para nos ensinar algo e trazem experiência.
Ultimamente, ando reclamando muito do tempo, ou melhor, da falta dele e ao receber de presente da minha amiga/irmã/mãe "Fia", uma linda agenda para 2012 recheada de muitos poemas, trechos de músicas e imagens de obras de tarde, me deparei com um poema de Fernando Pessoa, sob um de seus heterônimos, com o qual me identifiquei de cara! Ando mesmo pedindo a vida para ir mais devagar, ao mesmo tempo que saboreio as pressas diárias. Eu? Contraditária ? Não... apenas polissemicamente humana demais. Enquanto corro entre socorrer os dramas familiares, terminar um mestrado, organizar um casamento, vou cantarolando o samba de um minuto: "Devagar, esquece o tempo lá de fora, devagar, esquece a rima que for cara".

Não: devagar.

Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.

Devagar...                                                                    
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...

Talvez isso tudo...
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o universo...
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?

Álvaro de Campos, in "Poemas"

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Para ver, sentir e pensar


A revista Piauí de maio de 2010 veio com essa imagem na capa. Na época, fiquei com a revista na mão meio que abobalhada. A ilustração é de James Jean e, na minha humilde opinião, traduz com maestria as divergência entre o universo feminino e o masculino. Se bem que a roda que a menina traz consigo (ou esconde?) remonta muito mais indagações labirínticas do que uma simples diferenciação hierárquica entre os sexos...

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Detalhes

Na rua em que moro, há alguns moradores (inclusive minhas avós) que vivem aqui há décadas. É bom sair de casa e receber o bom dia e o sorriso de pessoas que me viram crescer, além da bênção e o "vai com Deus". Aqui, há uma vendedora de beijú. Isso mesmo, aquela iguaria derivada da mandioca. Mesmo quando não saboreio o tal quitude que é um tanto quanto pesado, é bom ver essa minha tia-avô preparar morosamente, em uma pedra aquecida, um sabor tão arcaico e, talvez por isso mesmo, bem procurado pelas pessoas no início da noite. 
De uns dias pra cá, essas mulheres da "melhor idade" de minha rua descobriram o hobby dos caça palavras. Passam horas com as revistinhas na mão, óculos na ponta do nariz, perdidas em meio ao emaranhado de letras.
Uma dessas vizinhas queridas já está com a audição limitada. Então, agora preciso aumentar a voz no "bom dia" porque, com olhos e pensamentos procurando palavras, ela já não percebe quem passa na rua.  
Trocamos um sorriso cúmplice e sigo minha rota.
Não peço a Deus para ter sempre essa mesma cena, a mesma rua. Apenas rogo para que em qualquer lugar que eu viva, por onde eu passar, eu consiga notar essas frestas da beleza da vida, sempre tão rica nesses detalhes corriqueiros... 

terça-feira, 19 de abril de 2011

Cordel Encantado


Música boa de ouvir é a composição de Gilberto Gil que abre a novela "Cordel Encantado". Não sei falar sobre o enredo em si, mas a música é linda!!! A voz de Gilberto Gil, que dispensa comentários, com a sonoridade deliciosa de Roberta Sá, cantora que amo... ficou show!!!

Lá vai a letra...atenção total na última estrofe...

Minha Princesa Cordel (Gilberto Gil)


Minha princesa,
quanta beleza coube a ti
Minha princesa,
quanta tristeza coube a mim

Na profundeza
O amor cavou
O amor furou tudo no chão
No coração do meu sertão
No meu torrão natal
Meu berço natural
Meu ponto cardeal

Meu açúcar, meu sal
Nossos destinos
Desde meninos dão-se as mãos
Nossos destinos
De pequeninos eram irmãos

E os desatinos
também tivemos que vivê-los bem juntinhos
E os caminhos nos trouxeram
pra esse lugar
A que vamos ficar
Amar viver lutar
Até tudo acabar

domingo, 20 de março de 2011

Nascimento

Visitei três bebês na semana passada: Iasmim: doce como o nome; Gabriel: sentidos apurados para descobrir o mundo e Lunna: toda a luz divina numa frágil criaturinha que pesa menos de dois quilos. Ao observar a ternura desses novos habitantes do nosso mundo também (re)nasço, acredito no futuro e teimo na "mania de ter fé na vida". Eles trazem mais força do que imaginam: a pureza que pensamos ter perdido, a dedicação que achamos que nunca seríamos capazes de doar e, principalmente, o desmedido amor mais desejado do que imaginávamos.
É a vida! 

segunda-feira, 14 de março de 2011

A receita da vida

Quanta coisa a dizer, a pensar, a fazer...
A vida sempre vestindo traje muito formal e eu querendo vê-la em veste leve e translúcida, sem o tecido de tantos anseios.
Nas tentativas sempre frustadas de saber e dizer quem sou , para que vim e outras tantas perguntas sempre tão existencialistas, queria mesmo apenas SER! Sem tantas indagações e justificativas.
Qual a receita? Só me forneçam se o prato for simples e divinamente delicioso...
Acho que no fundo, no fundo a gente é que complica colocando ingredientes sofisticados, inventando um modo de preparo mirabolante, lendo a receita num livro de culinária russa. Penso que vida tem uma receita simples que por parecer destinada à iniciação culinária de crianças, acaba por passar despercebida nessa nossa busca pelo "sabor ideal".
Confesso que ainda não encontrei minha receita derradeira. Viver é um processo contínuo de experimentação. Sempre tento colocar amor como ingrediente básico para toda receita (como vó Terezinha bem ensinou) e também os temperos da terra e outros de lugares que nem mesmo conheço (ainda)...
No preparo, sempre escolho o método mais complicado para descobrir, no final, que havia uma forma bem mais simples... 
O resultado? Ainda estou me deliciando com o prato, mas sempre faço a medida dobrada para dividir com quem aceita averiguar meus dotes culinários. No mais, tudo é uma eterna busca...ou alguém terá a verdadeira  receita da vida para me dar?

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Entre o silêncio e a palavra quase sempre opto pela segunda alternativa. Vivo em busca da palavra que designa meu ser, da melhor palavra para se levar a vida e do nome certo para tudo que vou sentindo e vendo por aí. Ainda assim, às vezes sinto-me "bicho do mato" acuado diante do novo. Bairrismo a parte, atribuo essa tendência introspectiva a Minas que mora em mim, a Minas na qual vivo, ao sertão nortemineiro com o qual convivo desde a mais tenra idade e me ensinou a engolir a dor da seca ao mesmo tempo que vislumbro a beleza sinestésica do cerrado. Sem tentar ententer o motivo exato da presença em mim de uma parcela que prefere a omissão de palavras, compartilho com vocês uma letra de música com a qual sempre me identifiquei. Gosto de ouví-la na voz de Saulo Laranjeira.


Lamento Sertanejo
(Gilberto Gil)

Por ser de lá
Do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato
Da caatinga do roçado.
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigos
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado.

Por ser de lá
Na certa por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo.
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão boiada caminhando a esmo.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Cheiro de lírios

Havia o nervosismo, a responsabilidade, o trabalho! Mas, no espaço do evento, colocaram um arranjo de flores... Meu nervosismo ficou com cheiro de lírio. Isso fez toda a diferença...

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Travessia

Ultimamente ando com uma vontade louca de me espiar. Queria poder ir até o futuro e me ver numa situação cotidiana daqui a uns anos. Descobrir se continuei eu mesma, se consegui cumprir minhas próprias metas e alcançar meu sonhos. Mas tenho que me contentar com minha situação humana de eterna esperança. Não dar para prever o futuro então o melhor é mesmo aproveitar a "travessia". Só sei de mim no presente. O futuro é sempre uma ave sem rumo. Ou com o voo já traçado? Não sei. Pertenço mais às interrogações do que às certezas.   

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

No feriado de ontem, depois de cumprir o ritual de conversar com meus mortos, aproveitei a chuvinha sempre supreendente neste sertão nortemineiro para assistir ao filme Julie e Julia. Filme encantador! Baseado em dois livros escritos em tempos bem distintos, ele aborda a forma como Julie, uma funcionária pública americana entediada com o trabalho e seu fracasso na tentativa de tornar-se uma escritora, já que não consegue terminar nada que inicia, encara um desafio: cozinhar todas as receitas francesas do famoso livro de Júlia Child e postar todas as experiências num blog . A empreitada era gigantesca para quem trabalhava o dia inteiro, chegava em casa mais 08 da noite e teria que preparar 536 receitas em 365 dias. Apesar do desânimo de alguns momentos, Julie consegue finalizar a atividade, o blog torna-se famoso, transforma-se num livro e , em 2009, nesse filme.
Para quem gosta do prazer de cozinhar, e, sobremaneira, de comer, o filme é um deleite. Leve, engraçado e edificante. Mostra, paralelamente, a força de persistência de duas mulheres: No passado, Julia Child na tentativa de publicar seu livro de receitas que tornou-se um sucesso e a levou também para a função de apresentadora de um programa de TV sobre culinária; e a determinação de Julie que, mesmo tendo inicialmente como leitora apenas a mãe, insiste no desafio por saber que isso a tornaria uma pessoa melhor, capaz de cumprir suas próprias metas. Agora quero ler os dois livros: a biografia de Júlia Child escrita pelo marido e as experiências de Julie relatadas pela própria. É muito bacana observar o quanto as histórias "renderam" com a era digital. Se inicialmente pensávamos que o computador acabaria com o livro, hoje assistimos a uma roda viva na qual as histórias vão se multiplicando. O blog Para Francisco, por exemplo, do qual sou fã, nasceu do luto da publicitária mineira Cristiana Guerra. Grávida, ela perdeu seu companheiro e para registrar as lembranças do amor entre eles com o intuito de mostrá-las posterirmente ao filho Franscisco, criou o blog que mencionei acima, cheio de vida, dor e muita beleza na escrita. Resultado? O blog passou a ter muitos seguidores emocionados com a escrita e história de Cris e trasnformou-se também no livro Para Francisco. Quem sabe um dia venha a ser um filme?
Só para citar aqui outro exemplo, a escritora Clarah Averbuck também começou escrevendo um blog, depois publicou livros e eles foram transformados em filme. Sem querer discutir aqui a qualidade dessa literatura surgida no universo cibernético, gosto muito de ver as histórias se ecoando. Esse fato lembra-me os contadores de histórias que pegam uma narrativa de um lugar, espalham-na em outro de forma já modificada e as palavras vão se tecendo por aí... No fundo, no fundo, todas as histórias, inclusive a própria vida, é uma grande rede tecida de palavras.

sábado, 7 de agosto de 2010

Felicidade

A felicidade é o bater de asas de um pássaro colorido que às vezes vem me visitar. Ele nunca avisa quando virá, tampouco tenho presságios sobre sua chegada. Não há toques de trombeta, o tempo não para ...
Mas recebo-a como dama mais do que merecedora de sua visita. Não faço perguntas! Jamais! Para não assustar o voo macio que traz meu sorriso.Às vezes esse pássaro encantado faz seu trajeto rumo a minha felicidade através de música, outras vezes usa algumas palavras escritas ou o olhar de um amigo. Tal ave mágica também traz minha felicidade através de uma gota minúscula de esperança colhida em fontes do além. Também me visita através das frases de crianças surpresas no tudo descobrir. Ele sempre traz um pedaço de mim perdido em remotos lugares. Sei que é um pássaro frágil. Sei que vai perdurar pouco seu voo de felicidade diante dos meus olhos. Ele fugirá todas às vezes que eu tentar eternizá-lo ao meu lado. Mas ele volta!!! O FRÊMITO VOO DA FELIDADE SEMPRE VOLTA... 

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Paixão

“Se uma camisa branca e preta estiver no varal num dia de tempestade, o atleticano torce contra o vento” (Roberto Drummond)

Não, não sou atleticana! Infelizmente! Porque queria eu viver uma paixão futebolística seja lá a cor do time. Só assisto aos jogos do Brasil na copa, não sei nome de jogadores, até hoje não entendi direito o tal do impedimento, mudo de canal quando começa os programas de esporte.
Cresci em meio a uma família materna de simpáticos cruzeirenses e uma família paterna de ardorosos atleticanos. Acabei não ficando em nenhum dos lados, acho que sempre gostei de um entre-lugar. Diante da minha total ignorância futebolística de achar que o nome "Cuca" sugere apenas uma personagem do Sítio do Pica-pau Amarelo criado por Lobato e não o novo treinador do Cruzeiro , gostaria de confessar uma admiração: Sou encantada pelos apaixonados! A paixão dos adolescentes que declaram amor eterno sem saber que ainda há muito para viver, a paixão dos fãs que confudem o ídolo com todos os seus próprios sonhos, a paixão dos pais de primeira viagem ao verem o sono calmo dos filhos, a paixão da menina com seu primeiro diário, a paixão misteriosa que às vezes sentimos  por uma música que fica por dias tocando na nossa mente, o olhar apaixonado do cão pelo seu dono...e a paixão em preto e branco dos atleticanos. 

domingo, 2 de maio de 2010

Vilarejo

Para Alessandra Sena

Viajando pelo norte de Minas rumo a Januária, fiquei observando  a quantidade de pequenas vilas, como é típico nos municípios mineiros: casinhas rodeadas de tradição. Em cada distrito, a igrejinha em torno da qual surgiu a história do lugar.
No poema Janelinha de trem Mário Quintana fala sobre "o desejo de um dia ficar repousando sob uma dessas cruzes de volta de estrada que parecem também estar viajando...."
Também fiquei com vontade de subir uma daquelas montanhas e visitar aquelas igrejinhas. Sentir o cheiro da fé, dos costumes, dos quitutes e ouvir o murmúrio das rezas. Desejei pertencer a um vilarejo como aquele descrito na música de Marisa Monte . Bater palmas na porta de casa, observar gotas de chuva fazendo pequenos buracos na terra, comer doce feito com  fruta do próprio quintal e ver a vida passar devagar....
Os mais receosos falarão das fofocas, dos pudores desse meu imagético vilarejo, mas prefiro pensar que isso é simples frente aos percalços da vida moderna.
Quero tomar café em mesa farta na casa de comadre. Quero falar com respeito dos meus antepassados. Quero guardar a sete chaves o segredo da receita do bolo da minha avó. Quero a igrejinha...o perfume das laranjeiras, o vilarejo  em cima da montanhas, dançar forró, esperar a reunião da primaiada nas férias, reunir as amigas para discutir modelos de roupa e cores de tecido. Quero  dar  "bom dia" para as pessoas que passam e, principalmente, acreditar que a vida sempre nos trará coisas boas, surpresas mágicas: na próxima chegada de ônibus, no que vir no "depois das montanhas", na safra das próximas chuvas, em cada começo de ano, em cada recomeço do trabalho.

Vila rejo (Marisa Monte)

(...)
Lá o tempo espera
Lá é primavera

Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar

Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção

Tem um verdadeiro amor
Para quando você for



sexta-feira, 16 de abril de 2010

Por que adoro sextas-feiras...

“Não sei se vocês já sentiram, leitores, a obrigação de ser feliz que vem embrulhada nas tardes de sexta-feira. É como uma imposição: quem não for estupidamente feliz, entre num bar e beba um vermute com amendoim e se embriague como nos doces tempos de outrora”.

Roberto Drummond

terça-feira, 6 de abril de 2010

As palavras e o tempo

Outrora escrevi um texto a lápis.
Voltei para cobrí-lo de tinta como forma de deixá-lo, pelo menos por um tempo, protegido das peripécias do tempo.
O tempo....
Ele já tinha começado a tecer suas teias viscerais e minhas palavras já começam a se apagar.
Misturadas, não permitiram a devida leitura.
Não consegui reler o que escrevi naquele tempo.
O tempo realmente apagou as letras, ou fui eu quem me apaguei daquelas remotas palavras?

Sobre o amor e suas intempéries

Os amores platônicos só são realmente belos na teoria. Imagens de paciência, sacrifício e devoção podem até fazer um baita sucesso nas melodias, no cinema ou na literatura, mas na prática...são extremamente dolorosos.
A dor de amar de forma intensa ao ponto de perder o sono, banhar-se em lágrimas pela pessoa amada que, provavelmente, nem lembra de sua existência, pode parecer extremamente poética, porém machuca infinitamente.
Marília esperando, tecendo e amando um Dirceu que já era senhor de escravos em Moçambique, casado e tranquilo no exílio totalmente esquecido dos sonhos utópicos da juventude e também da noiva, musa dos seus versos, é deveras romântico, mas certamente menos lírico e mais sofrido para a Marília de carne e osso, Maria Dorotéia, que recebeu por boca de outrem a notícia que seu amado noivo Tomás Antônio Gonzaga ( o Dirceu das liras) desposara outra moça. 
Prova disso talvez seja o fato dela nunca mais ter se relacionado com outro homem. Morreu só, certamente depois de assistir suas amigas e familiares casarem, terem filhos e viverem paixões menos heroicas e mais palpáveis do que a dela que morreu aos 80 anos, só e sem nunca mais ter botado o olho nos olhos do seu amado.
Da mesma forma, a metáfora da eterna espera encerrada por Penélope tecendo e destecendo o manto que, quando terrminado, seria sinal de que sua hipotética viuvez se acabaria e ela escolheria outro marido ganha cores mais ácidas e perde os nuances passionais quando se imagina a longa espera de mais de uma década pelo marido. 
Diferentemente da história de Tomás Antônio Gonzaga e Maria Dorotéia, Ulisses retorna para os braços de sua Penélope. Mas apenas sua presença fará com que ela esqueça todos os percalços dessa ausência de dez anos? E o amor dos dois superará as discrepâncias entre esses novos seres que surgiram depois de tantas adversidades?
A verdade sobre o amor revela-se com todas as suas idiossincrasias quando lenvantamos o véu superficial da imagem exteriorizada e alcançamos as reais angústias de um relacionamento.
Lágrimas de saudade e desespero podem até compor um lindo quadro, mas maltratam o ser e distorcem o amor que certamente combina mais com a alegria do que com o sofrimento.